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" Mato Perso
é um desses lugares em que a gente se embriaga só de olhar.

Tem encostas vertiginosas como dorsos de mulher, vales cheios de promessas, cascatas que fazem respirar fundo. Não bastasse toda essa magia, os parreirais espalham tapetes suspensos, convidando a voar numa viagem ensolarada. Mato Perso é também Santa Juliana, com seus mistérios. Uma vez pensei ter inventado um lugar com esse nome de santa, para depois descobrir que ele existe.

Se não estava no meu inconsciente, a única explicação possível é de que foi o sopro de algum anjo: anjo, ensina um velho rabino, é o nome que deveríamos dar ao que achamos que é uma estranha coincidência. Por falar em anjo, a igreja de Santa Juliana é a única que tem o diabo no altar.

O diabo mesmo, não a sua rotineira efígie de dragão. Mas não se assustem, não se trata de nenhum rito satânico. O diabo está amarrado com toda a segurança, como se faz com os cães raivosos. Com o cão acorrentado, Mato Perso pode se considerar um paraíso. Salames inesquecíveis, queijos macios e provocantes, pães um pouco menos que divinos, podem ser saboreados sem sentir o peso do pecado.

Mas nada disso seria perfeito, não fosse o vinho. Um Lugar assim o vinho só poderia ter, como tem, o nome de canção. Um vinho que consegue levar para dentro dele toda a beleza e todo o mistério de Santa Juliana. Um vinho honesto porque, não se esqueça, o diabo está amarrado lá no altar, não desce até a cantina para profanar a pureza da uva.

Assim, pode-se beber um autêntico Cabernet Sauvignon e ter a surpresa de descobrir que há nele um sabor que não deve ser esquecido, sem falar em sua cor luminosa de rubi. Na realidade, qualquer dos vinhos pe cheio de virtude.

No paraíso de Santa Juliana, não há o que discutir. É só escolher".

José Clemente Pozenato
Autor de "O Quatrilho"

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